Crescimento pessoal

01/10/2020 08h00

Casca vazia

A casca, mesmo quando vazia, sempre guarda uma história de voo

Por Sibélia Zanon

Nosso Bem Estar
Ninho

Casca vazia

Os ninhos dos pássaros se misturam ao meu.

Meu pai vive torcendo pra aparecer condomínio de joão-de-barro em forquilha de árvore do quintal. Ele fica assistindo João voar na esperança da ave construir morada perto do olho dele. Meu pai quer assistir a vida acontecer. Eu também gosto de assistir a vida acontecer. Outro dia deitei no chão, fiquei olhando as nuvens no céu, e perguntei:

- Para onde vocês VÃO com tanta pressa?

Quando eu tinha 12 anos, um ninho de tico-tico se fez numa samambaia bem em frente à minha janela. Injusto dizer que o ninho se fez quando o Tico carregou aquilo tudo de graveto, mas pra mim a arquitetura se deu no compasso de um pio.

Aí, chegaram os ovos, depois a espera, até que aconteceu uma eclosão de feiura, mas feiura prometedora. Eram três e eles faziam dança da fome cada vez que a mãe chegava da caça. As primeiras penas enfeitaram a carne e o desencanto virou graça.

Os moleques iam crescendo e eu junto. Mas teve uma noite, em que ouvi barulho alto. Não sabia se era no sonho ou na carne.

Quando acordei pela manhã, corri até a samambaia e descobri o ninho vazio. Tomei um café doído e fui pra escola porque luto é coisa que se chora por gente. Fiquei amuada num canto do pátio e minha amiga perguntou. Não aguentei responder só com o verbo, tive de regar as palavras por cima. Sempre achei ruim essa mania úmida. Gosto de farinha. Seca, solta, sopra e voa.

Casca de ovo tem cálcio e vira farinha de adubar a terra. Sabia?

Desde aquela samambaia, parei de adotar passarinho do quintal e deixei a natureza se resolver sozinha. O desapego foi se entranhando em mim pela dor.

Com 13, descobri que corpo de gente é igual à casca de ovo. O homem que eu tinha adotado como avô quebrou a casca e voou. Me contaram e eu sabia. Mas saber de ouvir é diferente de saber de olhar. E a gente só sabe mesmo quando a vida escapa da palavra e toca na carne. Quando olhei aquele corpo grande de abraçar estirado na caixa de madeira, estranhei.

A saudade é um par de asas.

Ninhos depois, uma ventania no quintal desencadeou ordem de despejo. O sopro se agigantou, expulsando o ninho da árvore. Esvoaçaram mãe, travesseiro, pai, colchão, crianças. Foi tudo pro chão. Aí, minha irmã correu pra cozinha, pegou o escorredor de macarrão e botou tudo em ordem. Cada criança na sua cama e um barbante amarrando a casa nova na árvore. Ficou tudo bem amarrado, mas virou móbile. O vento ninava e botava o pio pra dormir. Os pais tiveram menos trabalho e a ninhada vingou. A macarronada de domingo foi adiada.

Gosto de revisitar ovos e cascas vazias porque morrer não é talvez. É só cronograma, GPS e calendário. E a casca, mesmo quando vazia, sempre guarda uma história de voo.

Se o voo não vinga direito, tudo bem, porque a intenção mora lá. Desde a semente.

Olho pro meu pai e pra minha mãe. Eles fazem disputa. Meu pai bate o pé e diz que vai voar antes dela. Pode ser que sim e pode ser que nem. Não quero gastar pena adivinhando casca vazia. Quero adivinhar tico-tico, bem-te-vi e João em cada manhã, com hora marcada, na mesa do café. Minha mãe esquenta o leite e a conversa. Meu pai descasca o mamão e coloca os farelos de pão pro João.

Quando a casca quebrar e alguma vontade voar, sei que vai ser uma tentação grudar os cacos para construir mosaico de passado. Mas, depois que a vontade voa, a casca não cola mais. Melhor é festejar o voo.

Uma vez meu pai disse que é preciso ter um bocado de prontidão para se viver bem. Por isso passarinho parece desconfiado. Para a surpresa não pegar ele de voo curto. E para evitar de ficar tudo muito calmo e virar letargia.

L E N T A rgia.

Parece até nome de doença.

Imaginar casca vazia quando ainda cheia é jeito de apreço.

Gosto de assistir a vida acontecer.

- Para onde vocês VÃO com tanta pressa?

O corpo da gente é uma casca.

Dentro dele mora uma vontade.

Às vezes, a vontade rompe a casca e voa.

Aí, a casca fica vazia.

Quem fica, festeja o voo

porque voo não é pena.

E saudade... é um par de asas.

*Sibelia Zanon é Jornalista e escritora em O Vaga-Lume.

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